O que podemos aprender com as Paralimpíadas

Com as Paralimpíadas do Rio 2016, tivemos a oportunidade de conhecer histórias inspiradoras de superação, o que rendeu aos atletas paralímpicos o status de “super-humanos” . Mas será que esses atletas se sentem realmente a vontade com tal título?

A cadeirante iraniana Zahara Nemati de 31 anos é um dos incríveis exemplos de superação. Aos 19 anos, quando era lutadora de taekwondo, sofreu um acidente que a deixou paraplégica. Depois de superar a depressão pós-acidente, ela encontrou uma nova vida no esporte através do tiro com arco.

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Outra história de recuperação através do esporte é a de Marcos Alves. Cavaleiro desde os 10 anos de idade, aos 24, sofreu um acidente que interrompeu a sua carreira. Foram 17 anos sem montar, apenas como treinador. De cima de um cavalo, ele caiu, mas em cima de um cavalo, Joca se reinventou e logo se tornou o único medalhista do Brasil no hipismo paralímpico.

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Todas essas histórias de superação são realmente incríveis e nos fazem pensar que essas pessoas devem possuir algum “superpoder” para conseguir contornar todas as dificuldades impostas pela deficiência e se tornar um vencedor. Contudo, a maioria das pessoas com deficiência não se sentem assim. O que você irá encontrar na rotina de uma pessoa com deficiência é que cada ação do seu dia a dia é visto como algo  normal. Ou seja, navegar na internet usando a mão esquerda com um dedo a menos e seu braço direito mais curto, não é de forma alguma um ato heroico; isso é apenas viver, assim como uma pessoa com 10 dedos faz.Não que a vida dessas pessoas não seja difícil, Elisabeth Wright diz que odeia subir escadas e detesta as bolhas e feridas causadas por sua prótese. No entanto, é tudo muito natural para ela; é como ter dois braços e duas pernas como qualquer um de nós.

Assim, a narrativa de ” super-humanos” torna invisível o real suporte que esses atletas recebem por meio de recursos do governo e empresas.  Podemos dizer que as medalhas paralímpicas são ” um exemplo do que as pessoas com deficiência são capazes de fazer se receberem o apoio de que necessitam para contribuir da sua maneira com a sociedade”.

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Afinal, imagine o que aconteceria se o mesmo investimento que é feito no desenvolvimento de atletas paralímpicos fosse igualmente feito nas pessoas com deficiência em geral? Imagine como seria se o Estado trabalhasse lado a lado com essa comunidade de  pessoas para identificar e mitigar as barreiras que impedem a realização de suas aspirações?

Apenas imagine o que aconteceria com as pessoas com deficiência, se houvesse mais investimentos em acessibilidade, em serviços assistenciais de alta qualidade, em equipamentos e outros recursos que permitem a sua mobilidade, comunicação e exercício da cidadania?  Se investíssemos em saúde ( incluindo saúde mental) e outros serviços que possibilitem o acesso fácil ao atendimento médico?

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Somar com as diferenças

Imagine o que aconteceria se, assim como celebramos as conquistas das Paralimpíadas, nós utilizássemos as lições aprendidas durante os jogos mundiais sobre a importância de investimentos  e decidíssemos  investir recursos governamentais para que todas as pessoas com deficiência tivessem a oportunidade alcançar suas metas e objetivos?

Como disse Penny Pepper, transformar atletas paralímpicos em super-heróis não irá ajudar as pessoas com deficiência. Mas aprender as lições do que pode ser alcançado com o investimento adequado seria de enorme ajuda. Afinal, as barreiras que essas pessoas encontram para exercer a sua cidadania e para encontrar o  bem-estar podem sim ser removidas. É uma questão de escolha política, de como nossos políticos agem em benefício dessa comunidade de pessoas. Isso é o que as Paralimpíadas nos ensinou e é o que precisa ser mudado!

*Por Talita Cazassus Dall’ Agnol

 

 

 

 

 

2 comentários sobre “O que podemos aprender com as Paralimpíadas

  1. Heber Queiros disse:

    Muito pertinente a crítica. A construção da ideia de “super-humanos” é perigosa na medida em que desvia o foco daquilo que é fundamental para o aquilo que é secundário. A coroação é momentânea e eventual (4 em 4 anos), enquanto que a consciência inclusiva deveria fazer parte da mentalidade de uma sociedade que se fundamenta no princípio da dignidade da pessoa humana. Mas, infelizmente só nos damos conta disso quando a circunstância da deficiência “bate em nossas portas”.

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