A luta contra o sofrimento mental causado pela deficiência

A Paralisia Cerebral, por vezes,  me afunda em um buraco no qual eu não gostaria de estar; mas, apesar disso, consegui ver beleza na minha cadeira de rodas.

Quando se nasce com paralisia cerebral, é quase impossível esquecer que se está em uma cadeira de rodas. Isso traz um estilo de vida totalmente único, com um constante fluxo de pensamentos e sentimentos – bons ou ruins.  Então, decidi escrever esse artigo em homenagem a todas aquelas pessoas que perderam sua vida nos últimos anos – para a depressão ou suicídio. Espero com isso trazer esperança e ajuda – e mostrar que a deficiência é muito mais do que os nossos olhos podem ver.

Desde pequena, sempre soube que era diferente. Sempre tive uma sombra maior que o meu corpo, mas nunca fui capaz de olhar para ela – figurativamente e literalmente falando. Minhas pernas simplesmente não me suportavam em pé, e atribuo isso a minha paralisia cerebral. Gostaria de dizer que essa é a razão de tudo isso, mas estaria errada e não seria justa.

Eu deveria olhar para mim mesma no espelho todos os dias se eu quisesse substituir a culpa por algo que não gerasse esses conflitos internos. Eu não posso ficar culpando a minha deficiência por tudo; quando isso cria apenas pensamentos ou sentimentos,  independentemente se são bons ou não. Contudo, não posso negar o fato de que a Paralisia Cerebral é algo que existe e que, por vezes, me afunda em um buraco que eu não gostaria de estar. Eu percebo, também, a minha cadeira de rodas como sendo uma entidade dolorosamente bela; que possui o seu próprio estilo de vida e regras.  É um estilo de vida que nunca escolhi, mas que tornou-se o meu estilo de vida.  Eu também internalizei o suficiente as regras do que significa ser deficiente para compensar aquilo que não sou capaz de fazer por conta própria. Aos 32 anos, acho que fiz um trabalho justo em aprender a como viver a vida da minha própria forma. Mesmo assim, muitos aspectos do meu mundo físico e externo causam um certo tumulto no meu interior. E quando todos esses elementos surgem juntos, isso realmente me abate.

Ter PC – ou qualquer outra deficiência – é participar tanto de um jogo mental quanto de um jogo físico; que normalmente não aparece como uma leve brisa ou de forma sutil. É um jogo que vem como um lutador de 100 kg  que te acerta em cheio com a mão direita, ao menos para mim. Os alertas de que preciso encontrar caminhos alternativos para fazer certas coisas podem vir em forma de um barulho de motor de carro roncando,  do barulho dos passos quando alguém atravessa a porta ou mesmo do barulho das chaves do carro. Tem dias que esses barulhos – independente do que representam – atravessam a minha pele de tal maneira que roubam a minha paz interior.


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É nesse momento que vou para o computador e começo a escrever ou pego os fones de ouvidos para escutar música. Acredito que a criatividade é salvadora, não importa a forma como venha. E  esse é um dos poucos aspectos da minha vida que posso controlar plenamente. Escrever me dá esse controle, bem como  disciplina para não perder a cabeça em tempos difíceis.

É difícil imaginar como a minha vida seria se eu não tivesse PC; já que essa é a condição que conheco a minha vida inteira e seria tolice negar tal fato.  E estaria sendo ainda mais tola ao dizer que esses fatores que geram esses conflitos internos em mim fossem algo que desaparecesse. Eu posso desejar que as pessoas não dirijam seus carros, não façam barulho ao abrir a porta ou ao balançar as chaves. No final do dia, contudo, isso não seria real  não seria justo. Cresci em uma casa muita agitada, com pessoas saindo e entrando o tempo inteiro; e acabei me acostumei com certos sons na casa, pois eles representam a localização de onde estão meus pais e meus irmãos. Como na maior parte do tempo eu fico na cama, posso contar quantos segundos ou minutos leva para eu escutar a porta fechando ou passos subindo as escadas. Isso me faz me sentir segura de muitas formas.

Escutar esses sons cuidadosamente e conscientemente ano após ano me tornou autoconfiante em vários aspectos. Talvez mais relutante, embora, isso me force a ter mais paciência do que eu gostaria de ter. O fato isolado corta a minha alma como uma faca quente, mas tudo isso me faz perceber que os barulhos que não gosto são necessários para a minha família – e para outros – viverem a sua vida.  Não quer dizer que isso torne as coisas mais fáceis para mim. Eu ainda vivo na casa e ainda escuto muitos dos barulhos que cresci ouvindo. Eles me afundam um pouco mais em um buraco agora que sou adulta. Eu deito na cama, escutando com apreciação e compreensão, mas isso não muda o fato de eu ter PC. De fato, geralmente isso torna as coisas mais pesadas pra mim, pois sei que não importa o eu faça, não conseguirei fazer a minha deficiência desaparecer.  E tenho que lidar com isso – e com todos os seus aspectos emocionais – todos os dias e todas as noites da minha vida até eu morrer.

Essa é a única coisa que admito ter que lutar para viver em paz, já que é o aspecto mais difícil para eu aceitar.  Ironicamente, entretanto, digo a mim mesma que está tudo bem sentar em uma cadeira de rodas durante 10 horas ou mais por dia.  É muito fácil para mim dizer ” eu tenho deficiência” ou ” minha vida é mais difícil por causa disso“.  Esse é um fato que não posso esconder ou disfarçar. Nem que eu tente, já que todo mundo pode ver a minha cadeira de rodas ou a lentidão com que faço alguns movimentos. Mesmo assim, creio que muitas pessoas não saibam ou não entendam o peso emocional dessas afirmações – a menos que tenham alguma deficiência ou cuidem de alguém nessas circunstâncias.

Não é uma questão de ignorância ou intolerância. Trata-se, na verdade, de fazer uma escolha consciente que não todo mundo vive nas mesmas circunstâncias que eu e, por isso, nem todo mundo precisa pensar sobre os aspectos que envolvem uma deficiência. Dessa forma,  tenho a responsabilidade de conscientizar e educar as pessoas sobre deficiência.

Minha carreira como escritora me deu suporte para isso. Estaria mentindo se dissesse que escrever não é o que me mantém com os pés no chão e sã. Na verdade, é bem possível que essa seja a ferramenta que mantém meus demônios longe. Não tenho certeza de que me sentiria confortável escrevendo sobre algo tão pessoal se a criatividade não me impulsionasse. Escrever, por exemplo, esse artigo me faz pensar de forma diferente – e até de considerar como ajudar a mim mesma.

Espero que a leitura desse artigo possa ajudar todos aqueles que estão enfrentando uma batalha – independentemente se é em decorrência de uma deficiência. Ninguém está imune a sentir o peso das batalhas da vida, mas todo mundo merece a chance de se libertar das suas amarras. É só uma questão do quão longe uma pessoa deseja ir para alcançar a liberdade – e o que isso realmente representa.


Tradução livre do texto ” Wrestling With The Mental Distress Of Disability” de Erin Kelly


 

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