Autismo: O mundo precisa de todos os tipos de mentes

Temple Grandin, diagnosticada com autismo na infância, fala sobre como a sua mente funciona — compartilhando a sua habilidade de “pensar em imagens”, que a ajuda a resolver problemas que cérebros neurotípicos não conseguiriam. Ela traz à tona que o mundo precisa de pessoas com o espectro autista: pensadores visuais, pensadores em padrões, pensadores verbais e todos os tipos de crianças espertas e inteligentes.

Autismo é um continuum que pode ser mais severo, como no caso das pessoas não oralizadas, até graus mais leves, como as pessoas de alto desempenho e os cientistas brilhantes que vemos por aí.

Para compreender o autismo, é preciso falar das diferentes formas de pensar. É preciso se desapegar da linguagem formal. Isso porque eu penso em imagens; não em linguagem verbal. A mente autista se prende aos detalhes. Se formos realizar um teste em que seja necessário ver letras grandes e pequenas, a mente autista irá ver as letras pequenas mais rapidamente.

O fato é que o cérebro normal ignora os detalhes.  Agora, se você for construir uma ponte, detalhes são muito importantes, caso contrário a ponte poderá cair. E a minha grande preocupação, hoje em dia, é que a sociedade tem tornado as coisas abstratas demais; estão ignorando os detalhes. O que é muito ruim para o autista, já que ele tem dificuldade de abstração.

Mas, o que significa pensar em imagens? É como se tivesse passando um filme em sua mente, literalmente.  Minha mente trabalha como o Google imagens. Quando eu era criança, não percebia que pensava diferente das outras pessoas. Achava que todo mundo pensava em imagens. Então, quando comecei a escrever o meu livro ” Pensando em imagens”, comecei a entrevistar as pessoas sobre a forma como elas pensam. E fiquei chocada ao perceber que penso de forma tão diferente.  Se eu disser, por exemplo, ” Pensem em uma torre de igreja” , a maioria das pessoas irá pensar em algo genérico; contudo, eu só consigo imaginar um tipo específico de torre de igreja, a torre da igreja que eu frequentava na infância.


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Nem toda pessoa com autismo pensa em imagens, mas pesquisas demonstram que a maioria de fato pensa com cortex visual primário.  De fato, o pensador visual é só um tipo de mente. A mente autista tende a ser uma mente especialista – boa em uma coisa, péssima em outra. Eu, por exemplo, era péssima em álgebra e nunca me deixaram fazer geometria ou trigonometria. O que é um grande erro, já que existem crianças que pulam a álgebra e vão direto para geometria!

Outro tipo de mente é a mente em padrões; mais abstrata. Esses são os engenheiros, os programadores, capazes de projetar algo novo a partir de um pedaço de papel. Então, esses são os tipos de mente: mentes visuais, como eu; mente em padrões;  mente verbal.

Para você entender melhor, vamos  resolver um problema juntos… poderia ser a fiscalização da segurança de uma aeronave. Eu sou uma passageira frequente, com inúmeros voos feitos e se eu fosse responsável pela segurança da aeronave, o que eu observaria? Eu focaria na cauda do avião. Sabe, cinco acidentes fatais nos últimos 20 anos, nos quais a cauda saiu do avião ou o material dentro da cauda quebrou. A cauda do avião, pura e simples.  E o piloto quando anda pelo avião não observa o material dentro da cauda. É muito específico.  Veja a minha visão de baixo para cima. Eu pego todos os pequenos detalhes e junto eles como um quebra-cabeça.

A mente autista tem fixação por coisas. Quando eu era criança, tinha fixação por cavalos. Tudo o que eu queria era desenhar cavalos. E então minha mãe dizia ” Vamos desenhar outra coisa”. Então, porque não usar a fixação para ensinar a pessoa autista, como usar cavalos para ensinar matemática.  Em outras palavras, é preciso usar a fixação para motivar a pessoa autista.

É preciso levar em consideração todos esses tipos de mentes e trabalhar com elas, porque precisaremos desse tipo de pessoa no futuro. Vamos precisar de Einsteins, Van Goghs, Teslas, de cientistas das NASA. O que um pensador visual pode fazer quando crescer? Eles podem fazer design gráfico, todo tipo de coisa com computador, fotografia… As pessoas que pensam em padrões podem se tornar matemáticos, engenheiros de softwares, programadores. E a mente verbal: podem se tornar grandes jornalistas, políticos, atores.

E se um dia você se deparar com um autista em sua empresa, dê a ele uma tarefa específica. Não diga apenas ” Faça um novo software”. Diga a ele algo bem específico: Vamos desenvolver um software para celular para controle financeiro, e não pode consumir muita memória”. Esse é o tipo de informação específica que um autista precisa!


Adaptado de “ The World needs all kind of minds” de Temple Grandin


 

 

 

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